Decidi começar a escrever para não te obrigar a me ouvir, porque se eu começar a falar, vou te atropelar sem pena, sem dó, sem chance de defesa. É que não há lombadas no caminho entre o meu cérebro e minha boca, eu chego à alta velocidade em segundos, minha marcha é automática assim como minha mente.
Sempre fui meio malcriada e respondona, impulsiva ao extremo, nunca medi a intensidade do dizer antes que dissesse, nunca me preocupei com balanças, nunca temi reações. Mas eu estou tentando aprender a calar, é sério, estou me esforçando o máximo pra me controlar.
Eu falo porque vejo coisa errada acontecendo, não calo diante da injustiça e da falta de inteligência. Eu falo quando não me escutam. Eu falo mesmo que não me apóiem. Eu falo mesmo que chamem de absurdo. Eu falo porque não agüento ver decisões serem tomadas sem um consenso. Eu falo porque não acredito que exista tanta falsidade e hipocrisia em nosso meio. Eu falo por precaução, por zelo, mais priorizando isso, não me preservo, falo contra a minha própria defesa, ponho minha conta em risco, dou a minha cara à tapa, e apanho mesmo, é sempre assim que acontece.
Eu queria que fosse fácil, eu queria sim, ficar quieta e não me envolver, não sentir a dor dos outros, esperar o circo pegar fogo e ser a primeira a correr, mas não consigo.
Bem que podiam inventar um controle remoto que funcionasse em sintonia comigo (meu Namorado ia amar). Eu falo muito, exponho sempre minha opinião sobre qualquer assunto em pauta, até sobre futebol eu me atrevo, me intrometo, mas às vezes exagero, e nessas horas de hipérboles bem que poderiam me dar uma ajudinha e apertar o MUTE para eu parar de tagarelar.
Tem vezes também que falo rápido demais, e outras vezes codifico demais, ironizo, oculto o sentido. Detesto repetir o que acabei de falar, detesto quando me respondem com um: “Hã?” “O quê?” Se não prestar atenção no que estou falando é melhor esquecer, porque com certeza não tornarei a dizer. Nessas horas eu usaria a tecla SAP, num passe de mágica tudo o que falei se explicaria, e tudo o que eu quis dizer e não disse se traduziria.
Mas eu estou aprendendo, a vida tem me ensinado a ser mais prudente nesse aspecto, e pra falar a verdade, eu cansei de me expor e não ver nada de novo acontecendo, nada mudando, nada crescendo, eu só me ferro quando deixo minha voz aparecer, agora eu só quero saber de escrever.
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